Dia 46 – Falcon Lake a Kenora
Distância: 82,00km
Dist. Acum.: 3311,00 km
Cinco e meia da manhã o Nelson acorda. Sempre que ele acorda na barraca do lado, automaticamente eu acordo, mas pra sair do estado de inércia demora. Não sei como ele consegue acordar a essa hora todos os dias. Resolvi perguntar. Ele disse que a luz encomoda e ele acaba acordando. Até aí normal. Mas mesmo acordando com a luz, ele age sempre como se estivesse com pressa. Nem deixa eu terminar de arrumar minhas coisas e já vai pedalando em direção a estrada. As vezes isso é chato pacas e dá a impressão que estamos aqui só pra fazer a travessia e não para curtir cada momento. O problema não é acordar cedo, é fazer tudo rápido demais, como se estivessemos atrasados para algum compromisso importante, mesmo sabendo que vamos pedalar até o mesmo horário: 18h30, 19h. Cada um tem um ritmo e temos que respeitar as diferenças e nos ajustar. Ambos.
Como eu não estava conseguindo escrever muito, porque fico muito cansado depois de 8 horas pedalando e 12 horas na estrada, pedi para que terminassemos o dia mais cedo, as 18h, assim daria tempo para eu escrever, fazer a janta, armar a barraca e as coisas dentro antes de anoitecer. Querendo ou não, sempre é bom ter uma meia hora, 40 minutos para poder refletir sobre o dia e escrever. E assim eu conseguiria acordar cedo mais fácil também.
Depois da conversa matutina, seguimos o sol (nasce no leste, pra quem não sabe.. hehe). Na estrada o vento estava fraco, mas do lado ruim: batendo na cabeça. Em compensação, o cenário mudou novamente. Voltamos a ter muitos lagos e mais árvores na estrada. Pinheiros e outras árvores altas, arvoredos e arbustos. Vi um cervo (bambi) na beira da estrada. Ele estava do meu lado e não tinha para onde ir. Quando ele me viu, saiu correndo ao meu lado e deu uns saltos absurdo. Quando achou uma clareira na mata, sumiu do mapa.
Não demorou muito para chegarmos em Ontario e a vida na terra voltou aos poucos, bem como as subidas. Que delícia, poder subir uma montanha para depois descer em velocidade. Sensacional. Eu estava pedalando bem, mas meu joelho esquerdo começou a doer um pouco. Os joelhos ficam revezando. Cada hora é um que me lembra que ele existe. Antes de Winnipeg era o direito, agora o esquerdo. Se tivesse outro joelho, amanhã seria a vez dele.
Aqui em Ontario enfrentamos uma questão preocupante. Os acostamentos não são pavimentados, ou seja, só terra e pedrisco. Meu pneu é slick, para asfalto e quando preciso ir para o acostamento por causa de algum caminhão, é fácil perder o controle e cair. Outra coisa que piora a qualidade de vida do ciclista é que aqui a estrada é pista simples, e vem carro de todos os lados. Temos que ficar de olho no retrovisor para ver o que acontece com os carros que vem atras da gente, e termos tempo de resposta para ir para o acostamento rapidinho.
Depois de 20km de constução sem acostamento ou até mesmo rodovias sem pavimento, chegamos em Kenora. Na verdade chegamos em Keewatin, uma cidade de 4 mil habitantes que foi encorporada por Kenora, e hoje é como uma zona, bairro ou coisa assim da cidade.
Em Kewaatin, cidade dentro de Kenora, um carro parou na estrada e começou a falar comigo: “Ei ciclista, o banco RBC (Royal Bank of Canada – Banco que eu tenho conta aqui) está fazendo algo na cidade e tem cachorro quente e refrigerante grátis para toda a cidade. Acho que vocês deveriam ir lá e almoçar de graça!!!”. Bom, nem preciso dizer que a gente mudou a direção na hora e fomos para o centro de Keewatin para ver o que estava acontecendo.
Chegando lá, em frente ao banco, conhecemos a Jocelyn, o Jim, entre outros funcionários do banco que estavam organizando esse evento. Pessoal muito bacana, alegre e sorridente. Impressionante a simpatia. Jim é rotariano, coincidentemente, e ligou para o Presidente do Rotary de Kenora, Lloyd, que nos encontrou no hotel Best Western, no centro da cidade. Jim nos levou de carro até o centro de Kenora, mostrou alguns pontos turísticos da cidade e nos trouxe devola para o centro de Keewatin.
Depois desse tour, da reunião, muita conversa e uns 4 cachorros quente, seguimos viagem. Ainda tinhamos mais umas 2h30 de pedal e se o tudo desse certo, no final do dia estariamos longe. Mas o tempo não ajudou. Começou a chover e o céu ficou escuro. Não sabiamos o que poderiamos encontrar pela frente, então decidimos parar num campo de aeromodelismo para acampar. Encontramos um grupo de senhores pilotando seus aviões e helicópteros de controle remoto. Fomos bem recebidos e eles deixaram a gente acampar alí sem problemas. Ficamos conversando por horas e vendo eles pilotarem, foi bem diferente. O presidente do clube, Peter, nos levou para comer pizza no final do dia e nos trouxe de volta. Conversamos bastante sobre Forestry, um tipo de Engenheiro Ambiental aqui. Faz tudo que se relaciona ao meio ambiente. Desde estradas, mapeamento, manutenção de equipamentos, vê as árvores que precisam ser cortadas e fiscaliza tudo.
Armamos a tenda embaixo de um local pequeno que tinha cobertura para nos protejer da chuva. Doce engano, pois o vento fazia a chuva vir de lado. Colocamos a lona nas pilastras e colocamos umas madeiras para ajudar. Parecia uma favelinha, hehehe. Funcionou. Torcemos para o dia seguinte o tempo melhorar.
L.Felipe Preparativos